Eu a vi, no leito do hospital. Mas o que eu vi, não era o que eu esperava. A visão dela deitada, imóvel, sonolenta, tão frágil, foi como um choque. Estremeci por dentro, meus olhos arderam com as lágrimas prestes a explodir numa onda de dor, como uma porta de escape para a dor esmagadora dentro do peito. Mas reprimi o choro, o segurei com todas as forças, afinal eu precisava ser mais forte naquela hora, não por mim, mas por meu pai. Eu sabia que se eu chorasse naquela hora, ele desmoronaria, embora seja difícil pra mim, pra ele é mil vezes mais. É a minha avó, mas é a mãe dele. Acho que no final, a minha dor acaba duplicada, porque a dor aumenta por vê-lo desolado, magoado, triste. Seu eu pudesse privá-lo da dor, eu o faria, e a sentiria por ele. Somos tão parecidos nisso, sentimos as emoções de maneira tão extrema, forte demais, algo além do normal. A dor nos atinge quase implacável. Eu sei que todo mundo sofre, mas sei que por alguma razão, a intensidade e a profundidade com que sentimos é diferente, é sufocante. Eu o amo tanto, que chego a ser egoísta, porque no fim acabo me preocupando mais com a tristeza dele. Quero muito que minha avó supere essa fase tão complicada e triste, quero ver minha avó como antes. Mas também quero que ela melhore pra não ver meu pai assim de novo. Dói demais. Dói duplamente.
Vózinha, eu te amo, e tenho fé que a vó vai sair dessa, força vózinha. Pai te amo muito, e sei que Deus vai te dar forças, e eu vou estar aqui, ao seu lado, sendo incapaz de acabar com a sua dor, mas incansavelmente disposta a dividi-la!
À minha doce e amada avó, Etelvina; e ao Elry: meu exemplo de honestidade, caridade e simplicidade, meu herói, meu pai!
Eu caminho por entre as árvores. Afasto os arbustos suavemente, sentindo seu toque em minha pele. Sinto sob os pés descalços os pequenos gravetos, a mata rasteira, a terra macia e úmida. É quase uma terapia. Prossigo a caminhada, atenta a tudo ao meu redor. Observo as onipotentes árvores centenárias, firmes e fortes em suas grossas raízes. Os troncos envoltos em musgos de um verde brilhante. Aos pés das árvores pequenos cogumelos se aconchegam, flores silvestres demonstram sua beleza, pequenos animais se refugiam. Finos raios de sol penetram o denso bosque, o fazendo parecer cravejado de pedras brilhantes.
Passo cautelosamente por baixo de um enorme galho compacto e pesado. Não tenho pressa de chegar ao meu destino. Gosto da minuciosa beleza do caminho. Aquele é o meu segundo mundo. O melhor de todos por ser cenário de um romance. Foi aqui, em meio a mata selvagem que eu o vi pela primeira vez. Seus cabelos negros bagunçados pelo vento, caindo sobre seus olhos. Os olhos mais profundos e brilhantes que já vi. Sentado numa mureta de pedra, que em algum dia muito distante, foi um forte medieval. As ruínas envoltas por trepadeiras e inúmeras flores coloridas. Ele trazia na boca uma gaita que tocava tranquilamente, acompanhado pelo canto dos pássaros.
Subitamente tomada pela saudade, apresso o passo. Preciso ver seu sorriso cintilante e quente novamente. Só pelo fato desse pensamento me ocorrer, sinto um leve calafrio percorrer meu corpo. Preciso dele. Anseio por ele. Sem nem mesmo notar já estou correndo pela trilha que me levará aquele por quem meu coração nunca cansará de bater.
Ofegante, diminuo o passo. Respiro profundamente tentando controlar a entrada e saída de ar de meus pulmões. Caminho mais tranquilamente e o avisto no mesmo lugar de costume. Ele ouve meus passos se aproximando dele, e para seu canto instantaneamente. Levanta a cabeça para olhar-me com um largo sorriso já estampado em seu rosto. É o bastante para fazer-me fraquejar. É incrível o poder que ele exerce sobre mim. De fazer-me sentir tão bem, calma, ansiando por seus braços. Seus abraços. Seus beijos. Ele se levanta, caminhando em minha direção vagarosamente. Ganhando cada centímetro de distância entre nós, com uma leveza sem igual.
Eu fecho meus olhos e aguardo seus braços esguios e fortes me envolverem. O sorriso maroto nos lábios dele é quase palpável. Meu coração se contorce de alegria dentro do peito. Em poucos instantes estamos nos braços um do outro. Matando a saudade. Reconfortando a dor há um tempo, abafada. Deleito-me em sua ternura, no toque de seus lábios. Aquele é o nosso mundo. Apenas nosso. Sinto-me imensamente feliz por estar ali. Com ele.
De repente sou arrastada de meu mundo por uma voz conhecida. Sinto-me um pouco irritada, mas logo abro os olhos, sendo puxada novamente para o breu. Procuro pela voz.
– Ei, querida. Desculpe acordar você. Vim ver como está. – disse minha mãe com sua doce voz. – Aqui querida. – ela diz e pega minha mão para que eu possa saber onde ela está. O que não é necessário. Embora não possa mais enxergar, posso sentir a presença de uma simples borboleta a distancia.
– Tudo bem mamãe. Estou bem, apenas tirando um cochilo. – digo erguendo-me em um cotovelo e pondo-me a sentar.
– Não, querida. Deite-se. Pode descansar, vou ter que sair agora, mas volto mais tarde. – ela me beija carinhosamente na testa e sai do quarto.
O acidente. Aquele acidente tinha transformado a minha vida de uma maneira inexplicável. Foi por causa do acidente que ele se foi, e eu acabara cega. Mas eu já havia me conformado, não havia nada a se fazer quando a isso. Mas havia algo que os outros desconheciam. Eu tinha um mundo só meu, pra onde podia ir sempre que sentia a falta dele. Bastava apenas fechar os olhos para o breu deixar-me, e tudo ganhar cor e vida novamente. Um sorriso triste se forma em meus lábios. Mas logo o afasto de meu rosto. Em instantes estarei nos braços dele outra vez. Só preciso fechar os olhos, o que não tardo a fazer. Deixo um suspiro ansioso escapar com um sorriso, já não mais triste.